Biografia - por José Pedro Martins Barata

     

     JAIME MARTINS BARATA nasceu em 7 de Março de 1899 em Santo António das Areias, Concelho de Marvão, mas pouco depois foi viver para a Póvoa e Meadas, onde foi baptizado e que sempre considerou ser a sua terra de origem.

     O seu pai, José Pedro Barata, foi notado por Mousinho da Silveira nas suas passagens pelo Alto Alentejo em que frequentemente teve que fugir pela herdade do Pereiro, da família Sequeira, visto que esta herdade ficava junto à fronteira. Mousinho intercedeu junto da rainha D. Maria II para que ao jovem fosse facultada a possibilidade de estudar no estrangeiro e José Pedro foi bolseiro para Grignon, de onde voltou agrónomo e com uma larga cultura, muito moderna para a época.

     Modestamente, ficou como feitor da casa Sequeira, administrando a Herdade do Pereiro. Dele ficou, naqueles Concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Niza, uma fama de homem de grande integridade, uma austeridade e pobreza quase monástica e muita sabedoria.

     Com uma idade já madura, conheceu e desposou uma jovem professora primária colocada em Alpalhão, Antónia de Jesus Martins.

     Antónia de Jesus Martins era natural de Envendos, na Beira Baixa, e antes de ser colocada em Alpalhão como professora tinha estado a estudar o método de João de Deus, vivendo em casa do poeta, tendo ficado sempre muito amiga das suas filhas.

     Deste casal nasceram dois filhos: José Pedro Martins Barata e Jaime Martins Barata.

 

De Póvoa e Meadas para Lisboa

     Mas em 1904 José Pedro Barata morreu, deixando a viúva e os dois órfãos em precária situação. Com grande coragem, Antónia de Jesus, continuando professora em Póvoa e Meadas, conseguiu que os filhos fizessem o curso dos liceus em Portalegre, e, vendo que eram estudantes brilhantes, decidiu-se a deixar a Póvoa e trazê-los para Lisboa para procurarem a oportunidade de uma carreira com algum futuro. Este ambiente de austeridade e rigor moral marcou toda a personalidade dos dois jovens.

     Por entre dificuldades e privações, mas com grande dedicação e entreajuda, na cidade grande e estranha, os dois irmãos encontraram as suas vocações e fizeram os seus estudos.

     José Pedro Martins Barata entrou para a carreira militar, cursou veterinária e reformou-se com o posto de coronel-tirocinado com o curso de Estado-maior. Aposentado, voltou a Póvoa e Meadas, e dedicou-se à arqueologia, tendo produzido estudos e memórias apresentados à Sociedade dos Arquitectos Portugueses e a sociedades históricas espanholas.

     Jaime, mais indeciso, entrou para a Escola Normal Superior, com intenção de ser professor de matemática. Frequentou portanto, as necessárias cadeiras na Faculdade de Ciências, o que lhe permitiu depois, quando necessário, nos Liceus, leccionar também aquela matéria. A sua convicção não estava ainda inteiramente formada, pois um professor da Faculdade convenceu-o a fazer a admissão à Escola Superior de Comércio (depois ISCEF), e tornar-se economista. Foi admitido, mas não chegou a ser atraído pela carreira. Entretanto, outros interesses o chamavam.

 

 

Nas Belas-Artes

     Não havendo na Lisboa de então muitas distracções para um jovem estudante, Martins Barata começou a frequentar as salas de desenho da Sociedade Nacional de Belas-Artes.

     Aí, reuniam-se amadores e artistas em começo de carreira, ansiosos e entusiasmados de novidade, ensaiando as suas possibilidades e as suas tendências. Com um percurso escolar idêntico, estava Leitão de Barros.

     Vindos do estudo da arquitectura, estavam Tertuliano Marques, Cristino da Silva e Cottinelli Telmo. Diogo de Macedo, Jorge Barradas, Abel Manta, Francisco Franco, Eduardo Viana, Carlos Botelho, Alfredo Morais, Stuart de Carvalhais e muitos outros, com idades e assiduidades diferentes, encontravam-se no que era um misto de tertúlia e escola, olhando com certa irreverência para as figuras estabelecidos nas artes de então: Columbano, Salgado, Carlos ReisRoque Gameiro..

 

 

Como professor de liceu

     Esse ambiente artístico levou-o a desinteressar-se da hipótese de vir a ser economista, e regressou, com Leitão de Barros, à carreira de professor de desenho nos liceus. Como professor do 9.º grupo, foi nomeado professor do Liceu de Pedro Nunes (13-10-1922) (Ver Dos trabalhos manuais no Liceu Português - Dissertação apresentada ao exame de Estado na Escola Normal Superior de Lisboa - 1922). Em 1922 (com 23 anos, portanto!) e depois sucessivamente no Liceu Mouzinho da Silveira de Portalegre em 30-9-1923, no Liceu Bocage de Setúbal em 17-7-1925, no Liceu de Gil Vicente em Lisboa em 7-5-1928, e no Liceu de Passos Manuel em 22-11-1940.

.     Em 1939, como metodólogo, viajou à Alemanha e a França para actualizar os conhecimentos no domínio do ensino do desenho. Produziu no ano seguinte um livro de ensino do desenho, inovador para o tempo, entre nós. A sua devoção a esta carreira foi total e considerava-se sempre, e acima de tudo, um professor de liceu.

Mamia01-T.jpg (8631 bytes)     Nos primeiros tempos da sua vida de professor, e através do meio das exposições das Belas-Artes, Martins Barata e Leitão de Barros travaram conhecimento com as filhas de Roque Gameiro. Os dois jovens aguarelistas amadores vieram a casar com Maria Emília (Màmía) e Helena, respectivamente. (Ver curiosidade)

     Do mesmo grupo de amigos, Cottinelli Telmo viria a casar com uma irmã de Leitão de Barros.

 

 

Como ilustrador

     Por esses tempos, entre alguma boémia e iniciativas dispersas e fantasiosas, a vivacidade de Leitão de Barros levou-o a lançar-se no jornalismo; em conjunto com Martins Barata e Stuart de Carvalhais colaboraram no ABC e no ABCzinho. Em breve surgiu-lhes a ideia de lançar um semanário ilustrado, no Diário de Notícias – o Notícias Ilustrado – na sequência do Domingo Ilustrado.

     Para tal, montaram uma oficina de rotogravura, (a Ocogravura), em que eram sócios os irmãos Martins Barata, Leitão de Barros, J. Correia de Oliveira e Sá Pilão. José Pedro era o técnico, Jaime o fotojornalista, Leitão de Barros redigia, Pilão e Correia de Oliveira administravam.

     O jornal era feito depois das horas das aulas, em regime muito artesanal e primitivo, mas conseguindo às vezes «cachas» e colaborações notáveis. Ferreira da Cunha teve aí, com Jaime, algumas das melhores realizações do fotojornalismo incipiente. Apareceu um dia um jovem pouco conhecido, a pedir trabalho e ficou como ilustrador, no grupo: era Almada Negreiros. Botelho, Stuart e Barradas eram já colaboradores correntes.

     Não deixou Martins Barata, porém, de exercitar-se na aguarela e na ilustração. A ilustração era o ganha-pão, suplementando o magro vencimento de professor. A aguarela era o seu meio de expressão, mais acessível e que dominava melhor.

     Tendo, por influência de Roque Gameiro, criado um interesse muito profundo pelo mar e pelos barcos, nomeadamente pela Nazaré e o seu ambiente, era sobretudo a paisagem do Alto Alentejo natal e a sua gente que viviam nas suas imagens.

     Deste período, longo, ficou uma produção abundantíssima mas dispersa, constituída por capas, ilustrações à pena, fotomontagens e cartazes, marcados pela pressa e pela improvisação – mas de onde retirou um grande desembaraço gráfico, e uma certa facilidade formal que reconhecia como superficial. Mas na aguarela procurava uma solidez, uma construção e um «peso» evocador da rudeza granítica de Póvoa e Meadas, que deram um carácter torturado e agreste a um processo usualmente entendido como leve e transparente. A pintura de Zuloaga terá tido a sua parte de influência no modo de exprimir o ambiente do interior alentejano, e nas figuras densas e opacas que o povoam.

     Mas a influência de Roque Gameiro, se foi praticamente nula sob o ponto de vista artístico (tão diferentes eram as personalidades!), foi intensa em outros campos de interesse – a arqueologia naval e a Cidade de Lisboa.

 

 

A Arqueologia Naval - I

     Por volta dos anos 30 desenvolveu-se em Portugal uma longa e frutuosa polémica em torno dos navios portugueses dos Descobrimentos. A seguir aos trabalhos de Henrique Lopes de Mendonça, que incidiram fortemente sobre a barca dos primeiros tempos de exploração da costa de África, Quirino da Fonseca publicou o clássico A Caravela Portuguesa, que suscitou grande réplica por parte de Gago Coutinho. A querela destes três marinheiros era acompanhada, do ponto de vista de figuração, por Roque Gameiro, que apoiava fortemente Quirino. Este debate incitou Martins Barata a aprofundar a interpretação do navio português de transição do século XIV para o séc. XV – fê-lo durante mais de 40 anos com paixão e método, como se referirá mais tarde.

 

 

O interesse pela cidade de Lisboa

     Com Roque Gameiro, Martins Barata descobriu Lisboa. Mas foi através do jornalismo, que a sua veia olisiponense se veio a afirmar, e aí teve um evidente e íntimo apoio – Norberto de Araújo e Matos Sequeira.

     Da companhia quase diária dos homens de notícia, ávidos de entender o dia-a-dia da cidade e de ler em cada recanto e em cada pedra a continuidade da história de 2000 anos da cidade, resultou um entendimento de uma Lisboa, menos sábio e erudito que o de Vieira da Silva ou Pastor de Macedo, mas mais vivo e vibrante. A materialização dessa olisipografia deu-se com os monumentais três volumes das Peregrinações em Lisboa, entre 1938 e 1939. O texto curiosíssimo de Norberto de Araújo foi ilustrado por Martins Barata com aguarelas, desenhos à pena e grattage, e águas fortes e pontas secas.

 

 

Para a Exposição do Mundo Português

     Em 1940, a guerra assolava a Europa, e o regime do Estado Novo entendeu projectar uma imagem de estabilidade e paz por meio de uma manifestação espectacular: a Exposição do Mundo Português. Duarte Pacheco nomeou Sá e Mello comissário da Exposição, e Cottinelli Telmo o arquitecto do conjunto. Cristino da Silva projectou o pavilhão de Lisboa. Foram muitos os artistas que, sem grande discriminação de atitudes políticas, colaboraram naquele empreendimento, e muitos se revelaram aí.

     m01a-T.jpg (6620 bytes)m01b-T.jpg (6929 bytes)Martins Barata foi convidado a realizar dois trípticos para o Pavilhão de Lisboa, representando cenas da Conquista da Cidade por Afonso Henriques e os Cruzados, e Cerco dos Castelhanos no tempo de D. João I.

     Dada a grande dimensão dos painéis era um grande desafio a um aguarelista. Nem a técnica nem a escala eram familiares. Martins Barata propôs uma maquette a preto e branco: era a defesa do ilustrador posto pela primeira vez perante a escala da pintura mural.

     Os painéis foram portanto executados sobre tela, pintados a cera e óleo, com técnica rudimentar. Eram substancialmente grandes ilustrações, mas o instinto do ilustrador encontrou a escala justa, e o efeito era poderoso. As telas, acabada a Exposição, foram ainda vários anos conservadas numa arrecadação municipal, e depois levadas para o salão nobre da Casa da Alfândega, no Porto.

     No pátio do pavilhão, Martins Barata criou também o que foi a sua única experiência de escultor: um enorme baixo relevo que evocava um trecho de Lisboa seiscentista.

 

 

De professor para consultor artístico dos CTT

     Quando da Exposição do Mundo Português, os CTT determinaram uma emissão comemorativa, e Martins Barata foi convidado a estudá-la. Os selos dos CTT eram produzidos pelos Serviços Industriais da Administração Postal, mediante uma aprovação de uma Comissão da Junta Nacional de Educação; a apreciação desta comissão era bastante pro-forma e superficial, e a rotina nunca era perturbada. Mas Martins Barata tinha já uma larga experiência gráfica e, confrontado com este problema de tipo novo, pôs tantas questões, levantou tantas dúvidas e interrogações que o então Correio-Mor Couto dos Santos ficou surpreendido e intrigado com a complexidade da solução de um selo.

     Longas conversas e debates em torno da questão do desenho filatélico convenceram-no de que havia ali muito a rever e a pensar, se o selo fosse entendido como uma obra de arte circulante que atinge todos os estratos da população e representa o País diariamente no estrangeiro – um veículo cultural para além da simples função de valor tarifário postal.

Selo02-T.jpg (11328 bytes)      Selo23-T.jpg (14564 bytes)      Selo25-T.jpg (12601 bytes)      Selo31-T.jpg (14733 bytes)

     Depois de realizar vários selos, em que se foi apercebendo dos problemas da técnica e da expressão própria da imagem postal, Couto dos Santos chamou-o para junto da Administração Geral dos CTT, criando aí o cargo de Consultor-Artístico, em 1947. Martins Barata ocupou esse lugar até 1968, e a sua acção marcou uma renovação no gosto e no significado da arte postal – muitos artistas foram chamados a colaborar, em termos diferentes (até na remuneração!), dos que antes vigoravam.

     O selo português passou a ser olhado internacionalmente com a grande atenção, que ainda hoje merece e que se traduz por frequentes prémios e elevada cotação coleccionista.

     A entrada ao serviço dos CTT significou o termo da sua carreira de ensino liceal, e uma mudança substancial na sua actividade de artista: acabou também praticamente a sua prática de aguarelista. Para isso contribuiu decisivamente a segunda experiência de pintura de grandes dimensões, que o lançou definitivamente no campo da pintura mural.

 

 

Outro desafio de grandes dimensões

     A escadaria nobre do Palácio de S. Bento, depois da reconstrução de Ventura Terra, esteve longos anos com os dois trípticos dos patamares vazios da pintura para que tinham sido destinados. Abel Manta foi chamado para os guarnecer, mas nem a escala nem o ambiente gélido e formal daquele espaço eram favoráveis à sua expressão plástica. Manta nunca ficou satisfeito, e a Direcção dos Monumentos Nacionais interpretando também a inadequação da realização àquele espaço, convidou Martins Barata. Este aceitou sob a condição de que Abel Manta concordasse com a substituição: Manta, como velho amigo, não pôs objecções e Martins Barata enfrentou a tarefa. Era-lhe pedido que executasse a obra a fresco; isso seria um desafio demasiadamente grande, pois, para além dos problemas não pequenos que o lugar impunha, a técnica do fresco era-lhe então desconhecida.