Casa de Roque Gameiro

 
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Informações - morada, mapa, horário, contactos
1999-10-08 - Revista Expresso - A casa de Roque Gameiro, por José Manuel Fernandes
1990-07-11 - Diário Popular - Recuperação da Casa RG
1989-01-12 - A Capital - Obras na Casa RG
1987-12-14 - A Capital - Museu Municipal da Amadora
1982-10-22 - A Voz da Amadora - Centro RG
1982-09-09 - A Capital - Casa RG
1982-__-__ - Jornal desconhecido - Medalha 3º Aniversário Casa RG
1916-01-04 - O Mundo  - Uma tarde em casa de Roque Gameiro, por Norberto de Araújo
1915-          - Almanaque Ilustrado

1909-06-07 - Ilustração Portuguesa - Em casa de Roque Gameiro, por Santos Tavares

1905-02-11 - Correio Nacional, por Fr. Guy
1905-02-10 - Correio Nacional, por Fr. Guy

1905-02-09 - Correio Nacional, por Fr. Guy

1904-04-05 - Diário de Notícias (1ª Página), por Eduardo de Noronha
2005-02-25 - Programa RTP Entre nós - Casa Roque Gameiro
2017-05-22 - Programa  RTP2 Visita Guiada  - Casa Roque Gameiro
 
 
 
 
 
Memórias de um Outro Tempo
Por Ana Mantero, neta de Helena Roque Gameiro Leitão de Barros
     - “Despacha-te, Helena, que já ouvi o comboio a apitar em Queluz!” E ela corria apressada pela alameda ladeada de roseiras em direcção à estação dos com­boios da Amadora. Com apenas 14 anos, Helena ia a Lisboa para dar aulas de desenho e pintura no atelier de seu pai, Roque Gameiro, na Rua D. Pedro V. As suas alunas eram todas mais velhas do que ela, mas na casa da Amadora desenhar e pintar era tão natural como comer ou dormir. Helena orgulhava-se do seu trabalho, que desde essa altura lhe permitiu ganhar o suficiente para se vestir e calçar. Seu pai, que vivia com uma certa austeri­dade, queixava-se dos gastos excessivos da filha, que gostava muito de andar bem vestida. Helena foi sempre uma mulher muito elegante. O marido, Leitão de Barros, foi um aguarelista que por volta dos 30 anos se intitulava “um pintor fale­cido”, pois tinha definitivamente deixado de pintar, era um homem com mil pro­jectos e ideias, um sonhador com uma capacidade de realização e sentido estético invejável. Dedicou-se a várias actividades, desde o cinema ao jornalismo. Quem viveu no seu tempo, lembra-se da sensibilidade e humor das suas crónicas, “Os Corvos”, no Diário de Notícias.
     Viver na Amadora naqueles tempos era bem diferente; vivia-se no campo, era a Porcalhota. Poucas casas existiam naquela terra, onde a água da mina era vendida em carroças dentro de bilhas de barro. Além dos moradores, só a venda de produtos hortícolas transportados sobre as albardas dos burrinhos saloios dava algum movimento às ruas.
     Juntas de bois lavravam nos vastos campos de trigo que rodeavam a casa da Venteira. Ao fundo, nas colinas por onde desciam rebanhos, avistavam-se as velas brancas dos moinhos, que giravam movidas pela generosidade dos ares da região; as terras eram férteis e não havia saloio que se prezasse que não tivesse a sua horta e o seu burro.
     A família juntava-se às refeições na ampla sala de jantar. Quando fazia frio e o vento soprava forte nas terras da Venteira, sentavam-se à lareira numas cadeiras baixinhas, conversavam e riam, contando histórias uns aos outros. Em cima da mesa encostada à parede estavam as candeias, com a chama acesa num pavio mergulhado em azeite. Quando alguém se ia deitar, agarrava na sua luzinha e levava-a para o quarto. D. Assunção subia primeiro ao torreão para deitar o Ruy no quarto dos rapazes. Vestia-lhe uma camisa de noite e penteava os seus belos caracóis; Manuel, mais velho quinze anos que o irmão, deitava-se mais tarde.
     A caça era abundante naqueles tempos em que campo ainda era campo; qual­quer voltinha pelos arredores servia para apanhar perdizes, coelhos ou rolas. O Ruy, que gostava muito de ir caçar com Jorge Ottolini, o marido da irmã Raquel, pediu uma vez ao pai que lhe desse uma espingarda. Os 12 anos do Ruy impedi­ram o pai de satisfazer este pedido. Então, o Ruy, muito dado a engenhocas, resolveu fazer ele mesmo uma espingarda aproveitando dois bocados de canos de água, e apareceu ao pai com duas rolas mortas a tiro. Este, com medo do que poderia acontecer com a arma improvisada, ofereceu-lhe uma sarasqueta1. Aquele filho de temperamento irrequieto e independente veio, mais tarde, a valer-se do seu jeito de mãos para esculpir a pedra e modelar o barro2.
     Igual ao pai Gameiro não havia nenhum. Todos o conheciam, vestido sempre de surrobeco3 castanho, chapéu de abas largas e gravata Lavalière de seda, sempre verde-escuro com bolinhas brancas. Só no Verão mudava de vestimenta, para um fato de linho grosso, sempre de cor crua. Gostava de conservar os seus hábitos e costumes. A personalidade forte e conservadora deste pai ajudou a criar um ambiente familiar único, vivido numa casa tipicamente portuguesa, onde os filhos brincavam, descalços, debaixo da mesa de abas do atelier ou nos ban­cos do jardim, onde a vida se desenhava entre cavaletes e pranchetas.
Nas manhãs de domingo em que o vento descansava na Venteira, Raquel, Manuel, Helena e Màmía, acompanhados pelo pai, trocavam o atelier pela bela paisagem vizinha ou pelos jardins do Palácio de Queluz. Cada um escolhia o seu motivo para pintar, e o pai apenas apreciava os trabalhos dos filhos no fim de cada sessão.  No caso de  haver alguma coisa para corrigir, não o fazia directamente sobre os desenhos, mas à parte, noutra folha ou na margem, onde traçava as emendas necessárias. “É de pequenino que se torce o pepino”, e o hábito de representar em imagens enraizou-se solidamente naquele mundo infantil. A arte viveu sempre ao lado de todos até ao fim.
     Quando a Raquel casou, ficou a viver na Amadora, perto da casa dos pais. As suas filhas adoravam ir brincar para casa do avô, ir à horta às escondidas com o tio Ruy comer as cenouras que ainda não tinham tido tempo para crescer, sentarem-se na borda da “concha”, um pequeno lago junto à entrada. Ana, a mais velha das netas, acompanhava o avô até nas suas idas para a praia; os dois e um rapazinho que ajudava a levar as coisas necessárias para cada sessão de pintura sentavam-se à beira-mar admirando as ondas na praia Grande ou as poças de água na Adraga.
     Roque Gameiro passava vários dias acampado na praia da Ursa. Sozinho, con­templava o mar que não tem tempo, esperando o traço imortal da sua memória. Nas suas aguarelas procurava imitar a transparência da luz e da água, pintar era representar habilmente a realidade, a beleza das cores naturais. “A única descrição verdadeira do que é a aguarela [...] é toda a pintura que é simples­mente feita com tintas de água, sendo tudo o mais convencional [...] o que é necessário é água e muita água.”4
     Um dos grandes méritos deste pintor talentoso foi o de conseguir aguarelar à portuguesa, isto é, adaptar esta técnica difícil à cor azul do céu português, à luz clara dos dias soalheiros, bem diferente das paisagens sombrias e dos nevoeiros de uma Inglaterra muito mais “aguarelável”. É fácil imaginar a dificuldade de pintar com tintas onde não existe o branco. Apenas a brancura do papel que espera as manchas coloridas, que o pintor escurece com segurança e habilidade. Era preciso “entoar” entre o claro e o escuro. O interesse por assuntos históricos e ligados à navegação levou Roque Gameiro a pintar com precisão e rigor pequenas aguarelas, onde o traço cuidado e minucioso demonstra outra maneira de pintar com tintas de água. O aperfeiçoamento da técnica e a exploração das suas potencialidades permitiram-lhe realizar obras tão diferentes como o Retrato de Minha Mãe, o Arco da Praia da Adraga, a Torre de Belém, uma Paisagem em Avô ou o Beco dos Costumes da Lisboa Velha.
     Já no início deste século (1909) havia quem se preocupasse com questões re­lativas ao ambiente. Roque Gameiro e um grupo de pessoas ilustres que viviam na Amadora organizaram a Festa da Árvore. Estarão ainda de pé algumas das árvores plantadas naquele tempo? Num tempo de construções em cimento, o que nos resta desses belos monumentos construídos pela Natureza?
Embora a vida no campo da Amadora o seduzisse, Roque Gameiro apaixonou-se pela cidade de Lisboa - foi um amor à primeira vista: “Não esquecerei jamais a impressão de sumptuosidade e admiração que senti quando, aí por Fevereiro de 1884, vindo da minha humilde aldeia, entrei em Lisboa.”5 Conheceu como ninguém as ruas e as gentes dos bairros antigos. Percorreu vezes sem conta a Lisboa velha, que desenhou e pintou apaixonadamente, sempre receoso peio futuro da sua cidade, ameaçada pela destruição impiedosa de quem não dá valor ao passado.6
     Papéis e mais papéis repousam ordenadamente na mesa grande do atelier. Entretanto, os traços de um tempo inscreviam-se no branco do papel, Helena pintava uma jarra com flores, Raquel ilustrava um livro, Manuel copiava um mo­delo. Màmía era a única que utilizava tintas de óleo, e o Ruy desenhava debaixo da mesa de abas. Por vezes, Helena tocava no piano que estava junto à esca­da com o seu cãozinho Manjerico ao colo. A prima Hebe também pintava. O pai, Roque Gameiro, rasgava os esboços para a ilustração de As Pupilas do Sr. Reitor, descontente com os resultados do trabalho, e dizia: “Os desenhos têm que estar à altura das palavras do 'safardana do escritor'!”
     Màmía aprendeu pintura a óleo com Milly Possoz, incentivada pelo pai a deixar a aguarela, pois “bastava de aguarelistas”, dizia ele. Foi casada com o pintor Martins Barata, que se notabilizou pela execução de grandes pinturas murais, nomeadamente no palácio da Assembleia da República. Roque Gameiro, muito ligado à filha mais nova, acabou por abandonar definitivamente a casa da Amadora para ir viver ao pé dela.
     Comprou uma casa antiga em Campolide, onde morou até morrer aos 71 anos. Oito dias depois da sua morte, o filho Ruy, com 28 anos, e a mulher, Maria Helena, morrem num desastre de moto a caminho de Sintra quando iam visitar a mãe, que estava na Eugaria, em casa da irmã Màmía.
     A casa da Venteira é o testemunho da passagem da família Roque Gameiro pela Amadora. As memórias de um outro tempo, as marcas de uma vida, revelam-se na imortalidade de uma mancha azul ou um traço negro inscrito no branco do papel. Uma obra nunca acaba, o nosso olhar mágico pode recriá-la, senti-la em qualquer tempo de um outro modo, A arte tem o poder de prolongar infinitamente o rasto da existência humana num tempo sem tempo.
 
Notas
1.  Espingarda de caça, fabricada em Espanha.
2.  “Começa o barro, o material. Das suas mãos aparecem as cabeças, os torsos, as maquetes, as estátuas - e Ruy segue corajosamente até onde pode chegar; no entanto, continua a existir o rebelde, o inconformista, o escolar que luta contra os cânones, o que pretende inventar técnicas, o que deseja ser ele mesmo.”  Júnior, José Amaro, Artistas da Estremadura, p. 51.
3. Tecido de lã grosseiro e duradouro, fabricado na Covilhã.
4.  Entrevista ao jornal O Século em 22 de Maio de 1910.
5.  Pode ler-se na “Explicação” escrita por Roque Gameiro no seu livro Lisboa Velha editado em Lisboa no ano de 1926.
6.  “Essa sincera mágoa e uma natural e saudosa atracção pelas coisas do passado levaram-me desde há trinta anos a pintar em aguarelas, a desenhar e a documentar graficamente, conforme pude e soube, todos os pormenores que pouco a pouco iam desaparecendo da fisionomia da cidade, tarefa onde pus o melhor dos meus esforços e o carinho muito verdadeiro que consagro às coisas da minha terra.”
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Informações
Morada: Praceta 1º Dezembro, nº 54 - Venteira
               2700-688 AMADORA
Telefone:  214 369 058
Fax:           214 929 239
        ver em:  Imóveis de Interesse Municipal
Horário:
Terça a Sábado:
10,00h -12,30h e 14,00h -17,30h
Encerrado:
Domingos, segundas e feriados